O lado político do vírus corona

O lado político do vírus corona

Pr. Battista Soarez *

O mundo está em pânico. O Brasil transformou a crise da pandemia em crise política. Enfim, o coronavírus trouxe diversos impactos na saúde, na economia, na política, na sociedade e na igreja. Ninguém ficou fora da geral dor do momento. Ela é global.

Mas há uma política emporcalhada por interesses sórdidos. Inclusive no âmbito do poder econômico. E toda a celeuma em torno dessa pandemia ocorre em oposição a líderes de determinados países como, por exemplo, a Índia. O problema é que as pessoas acreditam que basta postar mensagens de adesão e apoio à nobre iniciativa para que ela se torne realidade.

Há uma verdade moral em torno de tudo isso que está acontecendo no mundo. Há uma visão crítica e ética, mas também há uma crença na vontade moral. Há um pensamento mágico sem análise mais acurada da realidade e suas contradições. Hoje, como durante a Grande Depressão dos anos 1930, muita gente pensa que a crise pandêmica terá uma resposta progressista como reação lógica à gravidade e à brutalidade da situação em que vivemos.

Por outro lado, como disse um certo ex-presidente, “o que está ruim ainda pode piorar”. O desemprego massivo e a mobilização resultante, por exemplo, tiveram como resposta o nacionalismo genocida, o fascismo e a guerra mundial.

Dizem que a origem dessa pandemia está envolta em teorias da conspiração, mas o que se sabe é que ela atingiu em cheio a globalização, reforçando o egoísmo nacional e social. Na realidade, a reação iniciou há uma década. E isso aconteceu como resposta à crise do capitalismo globalista de 2008, com mais neoliberalismo para dentro e novas formas de conflitos para fora. Isso atingiu, em cheio, a mente da sociedade secular e também da igreja. Esta última segue, meio perdida, em caminhos de “meia-crença” sem sentido e significado. E, nesse horizonte, muitos filhos de Deus estão caminhando de costas para Ele. Em razão disso, o mundo afunda nas suas consequentes libertinagens. De todo tipo.

No decorrer dos tempos — fracionados em décadas e períodos — a sociedade se fragmentou política e socialmente. E, por conseguinte, se desorientou ideologicamente nas redes tecnológicas chamadas “sociais”. A visão de Orwell, na obra 1984, se encontrou com a de Huxley em Admirável Mundo Novo. Na ótica do mundo passado-recente-presente, o governo Trump não inventou a agenda, apenas assumiu o que já estava traçado sem a máscara do discurso politicamente correto dos Democratas, que também defendem America First. Agora, o passo seguinte é quem comanda a nave do mundo oculto que, finalmente, ninguém sabe aonde vai parar.

O que dá nojo e assusta é o impacto que os interesses desonestos, se aproveitando da covid-19, causam sobre a sociedade; e a manipulação política da pandemia por autoridades, do nível internacional e nacional ao municipal. Que lástima! A classe média, um pouco mais intelectualiza, entrou em pânico irracional e recolheu-se acuada num labirinto de medo misturado com incertezas e falta de direção. Perdida, a sociedade afundou-se total na falta de tino.

Agora, sem liberdade de “ir” e “vir”, as pessoas tornaram-se incapazes de pensar e conviver em amplos setores da sociedade. Vemos, no fim das contas, um contingente de pessoas desempregadas, com empregos informais, largadas à própria sorte e tangidas pela política do mal da pandemia. Quem não está morrendo, está caminhando para a morte ou, no mínimo, transitando à beira do abismo da fome, da carestia e do medo.

Estamos vivendo um verdadeiro “salve-se quem puder”. Alguns “doidinhos” de terno e gravata postam “análises” recicladas do mundo apocalíptico. Outros espalham boatos sem lógica de certeza. A ciência patina em discernimento embaralhado, escasso de verdade e evidência de resultados. Enquanto isso, alguns agentes da esperança fazem “doações” e outros informam que também estão contaminados pelo vírus que, até agora, ninguém consegue explicar. Diante de tudo isso, os pobres (a grande maioria) ficam mais pobres e os ricos (uma absurda minoria) ficam mais ricos.

E assim, os “tiranos” interesses políticos seguem seu curso no cenário de suas impiedosas injustiças e até aceleram, com a população desmobilizada em casa, em um cenário surrealista sem precedente. Agora imagine tudo isso temperado com uma brutal dosagem de desinformação!

Fui informado, por meio da imprensa, que o governador Flávio Dino, do Maranhão, está desviando milhões de reais para esbanjar com seus interesses particulares e políticos. E polícia federal, até agora, não fala nada. Será por que?

Pelo que se sabe, a pandemia dividiu os Estados em dois grupos. Um grupo — Coreia do Sul, China e Alemanha — está sendo eficiente no manejo da crise. Outro grupo — como os países periféricos — estão patinando na ineficiência. Aí está um jogo governamental em matéria de estrutura de saúde pública e um modelo de saúde privada produzindo uma tragédia desnecessária em que a maioria não pode pagar e, portanto, pode estar condenada à morte.

Aí fica claro que uma diferença entre Estado e mercado é ocultada por acusações sobre a responsabilidade pelo surgimento ou pela disseminação do vírus. O desaparecimento das viagens de trabalho e de turismo, que eram massivas, a redução drástica do comércio, a paralisia da produção e a queda do consumo tornam incerto o cenário econômico futuro da globalização no Brasil e no mundo.

Parlamentares em reuniões por teleconferência, às vezes à noite, aprovam “medidas” que terão impacto social negativo duradouro.

Parece que, finalmente, a crise gerada pela pandemia do momento — outras certamente virão — demonstra que o modelo social vigente está esgotado e não possui capacidade de mudança. Por outro lado, como já disse, a sociedade está confusa e amedrontada. Isso, do ponto de vista político, é um problema. O mundo está dividido porque há interesses materiais e políticos conflitantes. E estranhos.

Esse é o impasse em que estamos atolados até o pescoço. E isso é o que está elevando a tensão do mundo. O vírus, até agora, é apenas uma incógnita. Finalmente, as perguntas que nos restam são: quem pode contribuir?; como pode contribuir?; ainda é possível fazer alguma coisa?

* PR. BATTISTA SOAREZ
(Escritor e jornalista)
Brasil, 04/03/2021

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